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Domingo, 20 de Julho de 2008

A reativação da IV Frota e a América Latina


A reativação da IV Frota Naval dos Estados Unidos, na zona do Atlântico Sul, provocará uma mudança radical e permanente nas relações militares dos EUA com a América Latina, escreve José Luís Fiori, no artigo “Escopeta não é chocalho”. Essa reativação, acrescenta, ocorre no momento em que já está em curso uma nova “corrida imperialista”, entre as grandes potências, que lutam por sua segurança energética e alimentar, exatamente como aconteceu no final do século XIX, e início do século XX. Para Fiori, essa competição já chegou à África e deverá atingir a América Latina, de forma ainda mais intensa, por causa dos recursos energéticos da região, de suas grandes reservas minerais e hídricas e de sua imensa capacidade de produção alimentar (especialmente no caso do Brasil), muito superior à da África.

Fiori chama a atenção para a fala do almirante Gary Roughead, chefe de Operações Navais da Marinha dos EUA, sobre o objetivo da IV Frota: “proteger os mares da região, daqueles que ameaçam o fluxo livre do comércio internacional”. O almirante acrescentou, em tom de advertência: “ninguém deve se enganar: porque esta frota estará pronta para qualquer operação, a qualquer hora e em qualquer lugar, num máximo de 24 a 48 horas”.

E comenta: “Com respeito à proteção do comércio marítimo, todos os especialistas sabem que só tem capacidade de proteger o 'livre fluxo do comércio mundial', quem também tem a capacidade de interrompê-lo. Ou seja, quem tem poder para proteger, também tem o poder de excluir concorrentes, se for o caso, quando se acirra a competição entre os estados e os capitais privados, como está acontecendo, neste início do século XXI”.

Quinta-feira, 3 de Julho de 2008

Eduardo Galeano cidadão do Mercosul: as palavras e a alma da América Latina


O escritor uruguaio Eduardo Galeano foi declarado hoje o primeiro Cidadão Ilustre do Mercosul, em reconhecimento à sua contribuição "à cultura, à identidade latino-americana e à integração regional". A homenagem ocorreu em Montevidéu, em um ato público que reuniu personalidades da cultura e da política latino-americana. O presidente do Paraguai, Fernando Lugo, viajou a Montevidéu para participar da cerimônia. Em sua fala de agradecimento, Galeano disse que o primeiro cidadão ilustre da região foi José Artigas e fez uma menção especial a três brasileiros: Aleijadinho, Garrincha e Oscar Niemeyer. Ele disse:

Nossa região é o reino dos paradoxos.
Vejamos o caso do Brasil.
Paradoxalmente, Aleijadinho, o homem mais feio do Brasil, criou as mais altas formosuras da arte da época colonial.
Paradoxalmente, Garrincha, arruinado desde a infância pela miséria e pela poliomielite, nascido para a desdita, foi o jogador que mais alegria ofereceu em toda a história do futebol;
E paradoxalmente, Oscar Niemeyer já cumpriu cem anos de idade e é o mais novo dos arquitetos e o mais jovem dos brasileiros.


E defendeu a unidade dos povos latino-americanos:

Esta nossa região faz parte de uma América Latina organizada para o divórcio de suas partes, para o ódio mútuo e a mútua ignorância. Mas só existindo juntos seremos capazes de descobrir o que podemos ser, contra uma tradição que nos treinou para o medo, a resignação e a solidão e que a cada dia nos ensina a não gostarmos de nós mesmos, a cuspirmos no espelho, a copiar ao invés de criar.

Clique AQUI para ler a íntegra do discurso de agradecimento de Galeano, feito na manhã de hoje, em Montevidéu.

Sexta-feira, 20 de Junho de 2008

A fonte de inspiração dos argumentos de promotores do Ministério Público gaúcho


O processo de criminalização dos movimentos sociais que vem sendo implementado exemplarmente no Rio Grande do Sul pelo governo estadual, Brigada Militar e Ministério Público estadual, com amplo e entusiasmado suporte midiático, não é um fenômeno local, sequer brasileiro. Está acontecendo em praticamente toda a América Latina, alimentado pelos mesmos argumentos.

O sociólogo português Boaventura de Sousa Santos já escreveu vários artigos sobre o tema. Segundo ele, está em curso na América Latina uma contra-ofensiva conservadora articulada pelos Estados Unidos e por grandes empresas transnacionais com interesses econômicos na região, misturando estratégias da Aliança para o Progresso com uma política de criminalização dos movimentos sociais e de comunidades indígenas. Os argumentos recentemente apresentados por promotores do MP gaúcho não têm nada de original. Clique AQUI para ler mais.

Segunda-feira, 2 de Junho de 2008

Unasul: a integração possível


O processo de formação da União de Nações Sul-Americanas tem duas novidades em relação aos anteriores. Uma delas é o nítido protagonismo do Brasil, que se transformou na locomotiva regional depois de estabelecer uma aliança estratégica com a Argentina. A outra é que a segurança regional substituiu a energia como mecanismo disparador da integração. A análise é do jornalista uruguaio Raúl Zibechi. Clique AQUI para ler.

Domingo, 18 de Maio de 2008

O alerta que vem da Argentina


O alerta lançado pelos intelectuais argentinos (ver nota abaixo) deveria ser ouvido com muita atenção pelos governos dos países citados. A guinada à esquerda que marca a história recente da América Latina já foi objeto de muitos textos e discursos entusiasmados. Esse entusiasmo, porém, pode favorecer um clima de desatenção com alguns fatos que vêm acontecendo no período recente. A direita latino-americana não engoliu e não engolirá passivamente as derrotas que sofreu nos últimos anos. Por maiores que tenham sido, é importante lembrar que, de modo geral, essas derrotas se deram fundamentalmente no plano eleitoral. Um amplo conjunto de estruturas de concentração de poder político e econômico seguem na mão desses setores.

O fato de terem sofrido pesadas derrotas eleitorais e políticas não significa que estão mortos. Pelo contrário, há vários exemplos que indicam uma contra-ofensiva em andamento:

A mobilização dos ruralistas argentinos contra o governo de Cristina Kirchner, recorrendo a táticas como bloqueio de estradas e interrupção do abastecimento de alimentos; as propostas autonomistas na Bolívia, que querem retirar do governo de Evo Morales qualquer capacidade de gestão sobre os departamentos mais ricos do país; o racismo explícito que acompanha esses movimentos na Bolívia; racismo este que também se manifesta na Venezuela contra Chávez e, de um modo um pouco mais dissimulado, no Brasil, em torno do debate das cotas e da demarcação das reservas indígenas; a crescente tentativa de criminalização de movimentos sociais e dos governos da Bolívia, da Venezuela e do Equador.

Há uma batalha simbólica, mais ou menos subterrânea, sendo travada nestes países. O manifesto dos intelectuais argentinos chama a atenção para isso. Está em curso, diz a carta, “um debate pelas heranças e biografias econômicas, sociais, culturais e militantes que tem como um de seus pontos centrais a questão da memória articulada na política de direitos humanos e que transita pelas tensões e conflitos da experiência histórica, inseparável dos modos de se posicionar diante de cada problema que está em jogo hoje”.

Debates e lutas sobre heranças e valores costumam ser de longo prazo. Por essa razão, não podem ser enfrentados com uma lógica pragmática que tem como horizonte sempre (e apenas) a próxima eleição. A advertência feita pelos intelectuais argentinos (de que há uma luta que não está sendo feita) encontra eco nas palavras do historiador Russel Jacoby, no livro “O Fim da Utopia – Política e Cultura na era da Apatia” (publicado no Brasil pela Record):

“Somos cada vez mais insistentemente convidados a escolher entre o status quo ou algo pior que ele. Não parece haver outras opções (...) Não há alternativas. É esta a sabedoria do nosso tempo, uma era de exaustão e recuos políticos. Há uma certa tendência cultural para bater em retirada. O problema não é a derrota, mas o desânimo e a dissimulação intelectual, fingir que cada passo para trás ou para o lado significa dez passos à frente”.

O alerta está dado. Depois, ninguém poderá dizer que foi pego de surpresa pelo curso dos acontecimentos.

Quinta-feira, 8 de Maio de 2008

Movimentos para interromper o processo de mudanças na América Latina


Ainda sobre a situação política da América Latina, vai aqui uma outra sugestão de leitura: um artigo da socióloga mexicana Ana Ester Ceceña, membro do Conselho Latino-americano de Ciências Sociais (Clacso) sobre um conjunto de movimentos que estaria em curso no continente para interromper – e reverter – o processo de mudanças políticas.

“Se estivéssemos em um jogo de estratégia, poderíamos reconhecer um conjunto de jogadas quase simultâneas que foram configurando a possibilidade de uma ruptura nos processos latino-americanos de recuperação de soberania”, adverte Ceceña.

O movimento autonomista desencadeado pela oposição ao governo Evo Morales na Bolívia seria uma das faces mais visíveis e ofensivas dessa estratégia. Fazem parte dela também a tentativa de criminalização do governo Chávez, na Venezuela, uma mudança na orientação normativa dos códigos penais (para criminalizar os movimentos sociais) e a mobilização da Quarta Frota da Marinha dos EUA para patrulhar as águas do continente. Clique AQUI para ler.